domingo, 15 de maio de 2011

Caixa de cervejas

Pseudo-crônica


        Depois de uma semana exaustiva ministrando aulas nas turmas de ensino médio, finalmente chegou a tão esperada sexta-feira à tarde. Saí do colégio com um palpite famigerado de tomar cerveja com porção de queijo parmesão; passei no supermercado no caminho de casa e sem hesitar depositei uma caixa de cervejas no carrinho de compras; saí cruzando os corredores em busca do queijo – “Queijo Parmesão Temperado” – era isso que dizia a embalagem, resolvi experimentar; ao lado da prateleira de queijos, havia a sugestão de alguns vinhos, lembrei da patroa, ela adora vinho, apanhei uma garrafa – “Tinto suave de mesa” – parecia ser bom.
        Me casei à pouco tempo, sempre me esqueço a data mas faz uns quatro anos mais ou menos, ainda não temos filhos, não por falta de tentativas, deve ter algo errado com a gente.
       Chego em casa atrapalhado com a sacola e dou de cara com a Patroa sentada rente à mesa com cara de amuada, resmungava algo em baixo tom, como se conversasse com um amigo imaginário. Dando-se por conta da minha presença, ergueu os olhos e me deu um sorriso triste seguido de um beijo rápido.
       Lamuriou-se então fervorosamente, estava com problemas no trabalho, datas estipuladas, pressão do chefe, e um milhão de planilhas pra preencher. Como não entendo bulhufas de setores administrativos, pude apenas ouvir, e arriscar a dizer que tudo iria dar certo.

- Não sei pra que uma caixa de cerveja ! - Reclamou enquanto eu desensacava a cerveja, o queijo e o vinho, fingi que não ouvi.
- Adoro esse vinho ! – Contentou-se agora já abrindo a garrafa.

        Enquanto cortava o parmesão em cubos, conversávamos sobre várias coisas; sobre o feriado na praia, sobre o stress das aulas, sobre o governo Dilma, sobre como o cabelo da Kátia havia ficado engraçado, até sobre o novo carro zero-quilômetro que o vizinho comprou, carro ridículo.
Apanhei uma cerveja e me esparramei no sofá, me atrapalhei um pouco com o controle remoto, os meus momentos na sala eram raríssimos. Logo atrás já veio a Patroa, também segurando uma lata de cerveja.
- Não sei pra que uma caixa de cerveja ! – Tornou a esbravejar um pouco mais dócil dessa vez.
     
       Deitou a meu lado no sofá apertado, e abraçou-me como se temesse um dia me perder. Continuamos conversando por muito tempo, vez ou outra prestávamos atenção no filme sem graça que passava na TV. Já com o riso mole, me abraçava ainda mais forte e fazia cachos no meu cabelo.
      Percebi que a cerveja havia acabado, a garrafa de vinho estava seca no chão da sala ao lado do prato vazio que à pouco estava o parmesão. Sentíamos-nos mais cúmplices do que nunca, sua pernas entrelaçadas às minhas, se tornavam uma só. Não fizemos amor naquela noite, apenas dormimos abraçados e bêbados; antes de pegar no sono ela abriu um sorriso embriagado, olhou nos meus olhos e disse rendendo-se ás gargalhadas.
- Não sei pra que uma caixa de cerveja – Apertou-me e adormeceu

(Bruno Ottenio)

O trabalho enobrece os "laços"

Pseudo-crônica


Fiquei desempregado pra mais de um ano, comi o pão que o Tinhoso amassou, vendia o almoço pra comprar o jantar, não sobrava cruzeiros nem pra molhar o beiço no boteco do Messias. A situação ficou preta pro meu lado, estava aceitando qualquer tipo de cilada que me aparecesse, desde vigia noturno, até à atendente de fast-food. Vendo o meu aperto, minha mãe gentilmente cedia alguns trocados de vez em quando pra  manter o meu vício e comprar alguns cigarros, mas não queria abusar da velha, foi aí que decidi tocar violão na praça da Sé pra não depender mais das migalhas da pobrezinha, não deu muito certo, as músicas do Roberto Carlos não faziam mais tanto sucesso quanto antigamente. Ia à entrevistas por volta de três vezes por semana, mas a resposta era sempre a mesma – Assim que tivermos um parecer retornamos pra ti – pois é, não retornavam, e quando o faziam, era apenas pra dizer que meu perfil não era compatível com a proposta da empresa.  A urucubaca estava feita, e muito bem feita por sinal.
       No início meus amigos me deram uma baita força, me emprestavam uma grana,  faziam questão da minha companhia nos passeios de sábado à noite,  vez ou outra até pagavam a minha cerveja, mas essas generosidades foram se tornando cada vez mais escassas, até que me vi sozinho.
      O Charlão nunca mais passou em casa pro jogarmos sinuca e  comermos amendoim com uísque, o Juninho sumiu no mapa e me abandonou nas quarta-feira que religiosamente assistíamos os jogos regados à cerveja do campeonato Brasileiro, nem se quer pro futebol  nas quintas à noite eu era convidado, e a Juliana, minha namorada, ou melhor, ex-namorada, disse que estava confusa em relação aos sentimentos, queria conhecer novas pessoas, precisava de um tempo, me dispensou.
         Passei incontáveis finais de semana na solidão dos meus aposentos, sendo praticamente obrigado à assistir aos insultos à minha inteligência que são os programas de TV que se vê hoje em dia. Estava na lama, sozinho, sem dinheiro, e assistindo “A Lagoa Azul – Parte II” num domingo à tarde, era o fim.
        Mas eis que o  Nosso Senhor Jesus Cristo, colocou a mão em meu caminho, e derramou suas graças sobre mim, consegui enfim um bendito emprego. Passei a trabalhar como auxiliar de almoxarifado no centro da cidade, não era lá essas coisas mas dava pra levantar um faz-me-rir.
        Minha vida voltou ao normal, desde então não fiquei em casa um final de semana sequer,agora sempre sou convidado e minha presença é sempre garantida em toda e qualquer reunião entre amigos. Vou pra churrascos, festinhas, barzinhos, botecos, bodegas, biroscas, baladas, quermesses, entre outras centenas de lugares, sempre acompanhado é claro, dos meus verdadeiros amigos, Charlão, Juninho e companhia. De vez em quando sobra até uns trocados pra comer um Mc Donalds com a Jú...Ah é esqueci de dizer, eu e a Juliana voltamos à namorar, ano que vem tem casório na certa, sabe como é, quando bate o amor não tem jeito.
(Bruno Ottenio)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Tú és bossa nova

Baboseira

         "Conheço um milhão de pessoas, tenho poucos amigos, outros tantos já perdi, amizade é algo frágil como uma peça de porcelana, um só esbarrão e tudo vira caco, além de perder-se fácil como agulhas no palheiro. Os drogados morrem, os malandros são presos, e os importantes se vão. As mulheres também partem, algumas vão e não voltam, outras vem e não saem mais, “Por trás de um homem triste, há sempre uma mulher feliz”, como diria aquele outro.


         Essa festa está uma loucura, sexo, cerveja e vazio, dá até pra ouvir o eco, vou tomar mais uma pra preencher esse maldito espaço. Ás dúvidas ainda estão em mim, meu nome é Bentinho, mas me chame de Escobar."


(Bruno Ottenio)

domingo, 1 de maio de 2011

Sobre o fim do eu Drummond

Baboseira

Pulou da cama às onze e meia, acordou menino, beliscou uma coisa cá outra lá, fingiu ser ator, dramaturgo, dançou, rebolou e mais uma vez fantasiou o impossível. A Babilônia é atraente até onde os olhos conseguem ver, esteve com verdadeiros e sentiu-se na paz de dizer verdades, chorou internamente mas sorriu do outro lado, a vida é curta negro.
Em alguns momentos hesitou, em outros consentiu, até tudo se dissolver numa nova gargalhada engasgada de álcool e experiências. Eram todos compatíveis, todos iguais e ridiculamente diferentes, não estava são, nunca esteve, ninguém está.
Foi à França com Estelle e Elodí, especulou sobre o petróleo na Venezuela, fumou haxixe em Bogotá, bebeu cevada em Madureira,e no fim pensou que fosse Drummond. Falou asneiras e mais asneiras e mais asneiras, imaginou transas, tranças, traças, grotescas, engraçadas, estava em paz.
Acordou com um coração e dormiu com outro, dormiu homem, ele estava de volta, voltou doutor.


(Bruno Ottenio)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Tarantino

Pseudo-crônica


 

               
Na minha opinião, a melhor obra do Tarantino foi o Pulp Fiction, o filme é definitivamente ótimo em todos os sentidos, cenas sangrentas, tensões a flor da pele, roteiro majestoso e diálogos quase que  intermináveis. Um dos diálogos que mais me chamou a atenção e me fez refletir, foi aquele cujo Mia Wallace e Vincent Vegan estão no bar anos sessenta e a desinibida Sra. Wallace comenta que só conseguimos saber que encontramos  a “Pessoa certa”, através dos momentos que  calamo-nos por um instante e o silêncio não nos incomoda, ficamos à vontade em silêncio na presença do outro.

...

                As três da tarde,  parei na lanchonete do Oliveira e resolvi comer alguma coisa pra tapear o estômago até a hora do jantar, sentei-me em uma mesa afastada longe da agitação, não estava lá muito católico. Batucava os dedos sobre mesa seguindo o ritmo de uma música desconhecida que tocava no rádio, desconfortavelmente, aguardava o cardápio e as sugestões ridículas que estamos acostumados a ouvir dessas garçonetes de meia idade.
                - Boa tarde moço, gostaria de ouvir as sugestões do dia?
Levantei a cabeça já  impaciente, e disparei em tom agressivo:
                - Veja bem querida, eu...
Não consegui completar que eu só queria um misto quente é um suco de acerola sem gelo. Ela era linda feito um pôr-do-sol frente ao mar, calei-me e a observei imóvel por não sei  ao certo quanto tempo. Cabelos pretos e lisos amarrados como um coque em cima da cabeça, pele morena, lábios finos e bem desenhados, óculos de armação grossa que tornavam seus olhos ainda mais expressivos, estava de calça jeans démodé, camiseta branca com as mangas dobradas até os ombros, e um avental branco com marcas de gordura. Percebendo meu espanto diante de tamanha beleza, a pobrezinha ficou sem jeito, baixou os olhos, sorriu timidamente, e  me estendeu o cardápio enquanto corava as bochechas.
Mudei até de cadeira pra poder observa - lá melhor sem  a menor questão  de tentar disfarçar, indo de mesa em mesa anotando os pedidos,  estava nitidamente desconcertada ainda esboçando um sorriso de canto de boca. Não hesitei, antes de partir perguntei o seu nome:
- Alice – Respondeu com a voz macia
                Dando um tiro no escuro num súbito de galã das oito, à convidei para sair um dia desses pra tomarmos algo e comermos uma porção de fritas, e abrindo um sorriso agora escancarado, ela aceitou.
                [...] Fomos no boteco do Gervásio, boteco limpinho à propósito. No início confesso que me arrependi um bocado de tê-la convidado pra sair, aquele brotinho com jeitinho de tímida era uma matraca incontrolável. Falava demasiadamente de tudo, da crise do petróleo, da novela das seis, do campeonato Brasileiro, dos métodos eficazes de se dobrar uma camisa, dos piores e melhores cantores contemporâneos, da quantidade imensa de calorias que existem em um mero misto-quente, do governo Dilma, do governo Lula, do governo FHC, até do Getúlio ameaçou falar, da queda do dólar, dos prós e contras do comunismo pós-moderno, da fome mundial, do teor alcoólico da brahma, do seus tios que moravam em Bariloche mas não gostavam de esquiar, da sua mãe que gostava de fazer tricô enquanto assistia o programa do Datena...enfim, tudo.
                Novamente eu estava imóvel, mas desta vez era de tédio, à cada assunto iniciado e terminado por ela mesma, eu tomava um gole generoso de cerveja  e fingia um interesse ímpar na conversa, ás vezes levantava as sobrancelhas expressando espanto, e outras vezes eu apenas sacudia a cabeça positivamente e resmungava algo. De saco cheio de tanta baboseira tomei a atitude mais sensata que poderia ter tomado naquele momento, à puxei pelo braço e lhe dei um beijo demorado valorizando os preciosos minutos em que ela ficaria com a boca ocupada. Terminado o beijo, ela abriu um sorriso cativante mais lindo e harmonioso do que qualquer outro que eu já havia visto e manteve seu rosto próximo ao meu, não disse absolutamente nada, tirou os óculos e manteve o sorriso, ainda abraçada à mim, brincava com a parte de trás dos meus cabelos, hora ou outra deslizava os dedos para meu rosto e com as costas da mão acariciava o meu queixo, ficou cerca de dez minutos apenas me encarando e tentando disfarçar  inutilmente um sorriso de alegria, com seus lábios quase tocando novamente os meus, interrompeu o silêncio aconchegante com um novo beijo demorado, Ela era a pessoa certa.


(Bruno Ottenio)


domingo, 10 de abril de 2011

A última crônica de Fernando Sabino

Essa mereçe um espaço no meu blog, crônica majestosa do mestre Fernando Sabino, confesso que os pelos do meu pescoço se arrepiaram, coisa linda demais, leiam.



"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

(Fernando Sabino)

Altruísmo

Pseudo-crônica

Após comer arroz, feijão, bisteca frita e abobrinha refogada,  fui esticar as pernas e dar uma conferida nas vitrines do centro da cidade. Gosto de acender um cigarro de menta e pitá-lo vagarosamente entres os transeuntes, crente de que não incomodo ninguém com a fumaça, afrouxo a gravata e abro o último botão da camisa; quando o careta acaba, subo lastimando a ladeira que divide o escritório do centro, confesso que fico desgostoso só de pensar na longa tarde de trabalho que me aguarda.
Hoje resolvi fazer um caminho diferente, soube que abriram uma loja de discos na esquina da Carlos Vieira com a Governador Saraiva, resolvi dar uma passada e desembolsar alguns trocados jogados no bolso do paletó para o bem da minha coleção; mais não foi bem isso que aconteceu. Quando virei  na Governador Saraiva senti cinco dedos finos e sebosos me puxarem pelo pulso.

- Aí Dotô na moral irmãozinho, bora descola um real pra eu cumê um bagulho na conectividade pode crê ?
- QUE ? – Não entendi nenhuma palavra do que aquele moleque disse.
- Porra chefe to na maior larica aí pode crê, faz mó cota que não bato uma chepa firmeza dotô, arruma na humildade um real pra eu cumê um dog alí no café, pode crê.
- Pode crer garoto, qual é teu nome ?
- Meu nome é Maiconsuel da Silva Nascimento
- Tu tem quantos anos moleque ? – Perguntei com ar de superior
- Tenho quatorze anos moço, to nessa correria frenética aí desde do nove, pode crê ?
- Pode crer, e você mora com quem gurí ?
- Moro mais ninguém não dotô, to no corre sozinho.
- Corre ? – perguntei confuso
- É chefe, to no corre sozinho faz mó cota, agora to correndo pelo certo manja, mais já corri muito errado irmãozinho, fugi de casa no pianinho quando tinha só nove anos pode crê, minha coroa era mó zica, me batia com o cabo da vassora na freqüência, aí casou com o meu padrasto e o chicote estralou, aí resolvi metê o pé. Quando cheguei na rua cheirava cola e fumava pedra pra dar um baratinho e matar a fome
- Mais você é só uma criança !
- Criança é o caralho chefe, ta me tirano ? So sujeito home, Já matei e já meti o cano em muita gente, mais agora eu to pelo certo.

Aquele moleque negro, sujo e mal-cheiroso tomou o meu dia todo, sentia-me no dever de fazer algo por aquele desgraçado. Nem voltei pro trabalho, procurei o restaurante mais próximo e pedi para que ele se servisse à vontade, o negrinho não conseguia nem respirar, atrás da montanha de comida via-se apenas os cabelos duros e despenteados se afundando entre a carne de panela e a feijoada. Fiquei apenas o observando e achando graça em tamanha gula. Quando parou de comer, se recostou na cadeira, pós a mão sobre o estômago e suspirou de alívio.

- Satisfeito ? – Perguntei ainda achando graça
- Orra Dotô, rango top !

Saí do restaurante e me despedi do garoto, saquei cinqüenta reais da carteira e pus no seu bolso da calça; com o sorriso de orelha à orelha, o moleque se enrolou no cobertor, agradeceu, virou às costas e partiu.
Confesso que me senti inexplicavelmente bem, sentia-me com o dever cumprido, tinha feito minha boa ação do dia, estava de consciência puríssima e em paz com os meus deveres cristãos. Cheguei em casa e contei orgulhosamente para o Bento, meu filho caçula, tudo o que havia acontecido; e com a inocência de uma criança ele me perguntou:

- Mas papai, amanhã você vai levá-lo pra almoçar de novo ?


(Bruno Ottenio)