quarta-feira, 6 de abril de 2011

Chico ou Jorge ?

Idéia

Há alguns dias surgiu na universidade uma discussão um tanto quanto polêmica, quem é O Cara, Jorge Ben, ou Chico Buarque ? É instaurado o bafafá, o murmurinho toma conta do recinto e aos poucos se tornam gritos envaidecidos, CHICO É POETA, grita um, JORGE É INOVADOR, retruca o outro do lado de lá; CHICO É BURGUÊS, acusam os Benjorianos, JORGE É POSITIVISTA, protestam os Buarquinos. E esse povo de humanas leva tudo sempre pro lado pessoal, e o ego sempre explode no peito "revolucionário" :

- Vá se ferrar seu reacionário neo-liberal !
- Vá você seu pseudo-proletário de merda !
- Isso foge dos padrões fundamentais estipulados pela antropologia, você está sendo determinista e taxativo !
- Só tem propriedade pra falar de favela, quem de fato vive em uma, você é um contraditório sendo sociólogo e empresário ao mesmo tempo !
- Isso é típico da mentalidade capitalista detentora dos bens seu Taylorista de meia tigela !
- Vá as favas seu fascista etnocêntrico, saia do seu conforto e vá ao campo seu antropólogo de gabinete !
- Escuta aqui ô carcamano, você já leu Marx ?

            Pronto, a discussão debandou praí, deixei essa conversa pra lá, Marx é legal, mais Chico e Jorge são mais, não quis misturar as coisas. Cheguei em casa e ouvi Jorge, lendo Chico, e o Marx ? deixa pra lá. Tem gente que ainda está bronqueado com isso, vira a cara e torce o nariz com O Capital embaixo do braço







(Bruno Ottenio)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Queijo Frio

Pseudo-crônica

           
Ele era o homem mais triste do mundo.
           
             Acordou às 7:15hs, morava sozinho, escovou os dentes, tomou uma xícara de café, tornou a escovar os dentes, não gostava do gosto amargo na boca, em frente ao espelho abotoou pacientemente a camisa engomada enquanto fitava-se no espelho, apertou a gravata e notou que envelhecera dez anos em apenas dois, ainda sonolento calçou o sapato caprichosamente engraxado, jogou seu terno por cima dos ombros,e montou na sua motocicleta; era o motoboy mais elegante da cidade.   
            Em meios aos carros, pensava no fim de semana, na cerveja gelada e no pagode da rua XV. Era só mais um dia, foi à prefeitura e expediu certidões negativas, graças ao terno, as mocinhas do atendimento sempre o tratavam bem, mordomias dos executivos; foi ao cartório de notas tirar algumas cópias autenticadas, enquanto aguardava o anúncio da sua senha papeou algo sobre o tempo com um senhor que nunca havia visto, tentou levar a conversa pro futebol mas não deu muito certo, o velhote torcia pro Madureira, pobre coitado. Tornou a prefeitura pois se esquecera de retirar um alvará importantíssimo que lhe custaria o emprego caso fosse esquecido; fez um pausa para o café. Alternando mordidas num pão de queijo e tragadas no cigarro, refletia sobre a vida e como havia tornado-se gélido e solitário, há "séculos" não via seus amigos, seus pais moravam em Bragança Paulista e a passagem só de ida lhes custariam os olhos da cara;  lembrou-se da Lenita, sua ex-namorada, nunca mais havia ligado pra jogar conversa aos ventos, nem se quer pra perguntar como havia passado o dia; quando percebeu que seus olhos marejavam montou na motocicleta e voou.
            O trânsito era caótico feito rodovia pós feriado, se espremendo entre as latas de metal acelerava mordendo os dentes, a buzina freqüente se tornava quase inaudível misturada ao vento ensurdecedor, pra trás ficavam apenas as ofensas e os olhares de reprovação comprovados pelo retrovisor, num lapso de heroísmo e fuga de si, avançou o sinal. [...] O mundo virou de cabeça pra baixo, flutuou por alguns segundos, escorregando violentamente no chão viu seu único terno desintegrar-se no asfalto quente e áspero, o sapato engraxado não estava mais nos seus pés, sua mente tornou-se livre de pensamentos durante aqueles poucos segundos, quando bateu as costas no meio-fio os pensamentos voltaram, um pouco antes de desmaiar ouviu o trompete de Miles Davis.
            Oito costelas quebradas, torção no joelho direito, fratura em ambos os braços, incluindo crânio e pé direito, deslocamento da bacia, e um furo no pulmão. Quando acordou perguntou para a enfermeira sobre a situação de sua motocicleta, com ar de desdém ela não respondeu, apenas o olhou pelo canto dos olhos e resmungou algo que ele não pode entender; ao olhar para o outro lado, viu ao menos sete pessoas vindo em sua direção, ainda estava atordoado mais os reconheceu; seus pais, quatro amigos do colegial, e a aflita Lenita. Em meio à um choro coletivo entoaram mil lamentos e pedidos de desculpas, enquanto exaltavam glórias pelo pobre infeliz ainda estar vivo
 A noite, agora sozinho, ainda incrédulo da presença de todos, se sentia leve, diria até feliz; um pouco antes de dormir, se ajeitou no colchão desconfortável do hospital, afundou-se no travesseiro, fechou os olhos e deixou escapar um sorriso, pensou na Lenita até pegar no sono.


(Bruno Ottenio)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Poeta

Pseudo-crônica

Conheci o Carlos, Caca para íntimos, na faculdade de farmácia em meados 1921. Era um doce de rapaz, simpático em todos os sentidos, muito conhecido nas redondezas da universidade por ser considerado por muitos um poço de alegria e carisma. Rapagão moreno, nem magro, nem gordo, dentes arrumados, cabelos negros e dançantes, sem contar o sorriso cativante, posso afirmar sem dúvidas quanto a minha sexualidade que o Caca era um sujeito boa pinta.
                Fazia um sucesso danado com as moçoilas da arquitetura, era Caca pra lá, Caca pra cá, um tremendo burburinho, Caca que não é bobo nem nada adorava a confusão instaurada por conta dos seus dotes, quando digo dotes, digo na mais pura inocência, sem maldades, entendam como quiserem.
                No auge da sua forma física e esbanjando simpatia, Caca literalmente passava o rodo, não perdoava ninguém, bastava meia dúzia de sorrisinhos e dez minutinhos de conversa e pronto. Confesso que nós, os outros homens, ficávamos com o perdão da palavra "putos" da vida, o infeliz não nos dava espaço, e com todas as menininhas aos seus pés, o campeão aprendeu direitinho como agir. Comprometimento jamais essa era a filosofia do Carlão, abrir seu coração para as garotas nem pensar, sempre frio e calculista em relação a qualquer tipo de sentimento afetivo, rapaz esperto diga-se de passagem.
                Eis que um dia surge um broto especial, Caca então se apaixonou loucamente pela primeira, e tragicamente última vez; como dizem os velhos e os adeptos à ditados, "Alegria de pobre dura pouco". E durou mesmo, exatos vinte e um dias, Caca desabou feito um lutador de boxe quando leva um soco certeiro na têmpora depois de sete rounds. Jamais tinha amado alguém, mais tinha certeza que aquela garota seria o único amor de sua vida, ainda não entendo como em apenas vinte e um dias pode-se chegar a essa conclusão, mais enfim, sentimentos são sentimentos.
                Com a dor do abandonou apertando o peito, Caca percebeu que levava jeito pra duas coisas; a primeira era fechar a cara e ficar cabisbaixo durante o tempo que fosse necessário; a segunda era escrever. E foi isso que passamos a ver constantemente desde então, durante as aulas, abatido,  Caca escrevia freneticamente como se descontasse todos os seus sentimentos naquela folha de caderno amassada, os olhos sempre marejados, o rosto sempre triste e amuado, e o maxilar nitidamente rígido o tempo todo; o pobre coitado sofreu até de distensões no pulso de tanto escrever sentimentos.Escrevia de tudo, poemas, crônicas, jograis, artigos, ensaios, dissertações, enfim, tudo que lhe vinha a mente. E assim se tornou o ex-simpático Caca.
                Mantenho contatos com o Carlos até hoje, a última vez que o vi, foi no lançamento do seu décimo livro de poesias; esperei pacientemente na fila aguardando a assinatura de Caca em meu exemplar; quando ele me viu por cima dos seus oculinhos redondos, armou um sorriso tímido como à tempos não o via fazer, o rosto abatido definitivamente não mudou, os olhos pequenos cheios d água ainda continuavam dispersos e tristes; levantou-se, afastou a cadeira pacientemente, e me deu um caloroso e demorado abraço. Conversamos durante uns vinte cinco minutos, até me despedir e voltar pra casa.
                Na mesma noite deitado na cama ao lado da minha negra, abri a contra capa do livro, e li a seguinte dedicatória:

"A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem. Durante toda minha vida, nada escrevi, não dêem-me créditos, eu apenas cravava a pena em meu coração sangrado, e  deixava que o mesmo o fizesse. É sempre bom revê-lo meu nobre camarada, um grande e forte abraço do seu amigo, Drummond"
               
                Dormi pensativo.


(Bruno Ottenio)







terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A triste e desgraçada história de Vladimir Corrêa

 
Pseudo-crônica


               Há quinze anos, fui no casamento do Vladimir, um amigo de infância que cresceu comigo batendo bafo e jogando futebol de rua lá pelos lados da Vila Helena. Casório com tudo que tinha direito, afinal de contas depois de doze anos de namoro,  Maria Cláudia quis o pacote completo. Na igreja seguiu o protocolo : véu e grinalda, vestido branco e daminha de honra. Na festa foi um requinte: pãozinho com carne moída, batata ao molho, contra-filé assado, tubaína de guaraná e muita, muita cerveja... Coisa de primeira!
                Lembro-me como se fosse hoje, comi batata até passar mal, arrisquei até uns passinhos ao som de "YMCA", e no dia seguinte acordei com uma ressaca terrível. Foi um baita festão como não se vê todo dia.            
                O Vlad logo tratou de comprar uma casinha pros dois, lugarzinho aconchegante, com churrasqueira e sacada, deve custado uma fortuna, mas o Vlad tinha condições, era corretor de seguros a anos, conseguiu fazer seu pé-de-meia.
Dois anos depois compraram o primeiro carro, a inveja boa me consumiu, sempre foi meu sonho ter um opala, e o sacana tirou um zero kilômetro, fiquei feliz por ele. As crianças vieram e Vladimir e Maria Cláudia formaram uma linda família.
                Semana passada encontrei o Vlad no metrô, acabado, barba por fazer, cabisbaixo, olhos marejados, camisa amarrotada, e um insuportável bafo de pinga, quase não o reconheço.

- Vladimir ? é você ?
- Infelizmente - respondeu o coitado quase chorando de vez
- O que houve Vlad ? - Perguntei já esperando o pior
- A Maria Cláudia me abandonou
- Como assim Vlad, te abandonou quando, por quê ?
- A um mês atrás, disse que não me suportava mais, que estava cansada de olhar para a minha cara gorda todos os dias, disse que já não agüentava as minhas manias e costumes, que os últimos quinze anos foram os piores de sua vida, e que iria mudar radicalmente. Soube que agora ela vive com um grupo de hippies sujos, anda por aí cantarolando mantras e vendendo artesanato na praça central.
- Mais que caralho hein ! - Juro que tentei responde algo decente, mais naquele momento foi a única coisa que veio à minha mente
- Pois é amigo, minha vida esta destruída - lamentou o infeliz, agora se derramando em lágrimas.

                Voltei pra casa perplexo, um casamento tão lindo e perfeito quanto o deles, acabar assim, sem mais nem menos, é difícil de acreditar, ainda mais quando acontece uma desgraça dessas com um cara tão dedicado e bom marido quanto o Vladimir. Mais já devia ter desconfiado que algo não estava bem com o Vlad, fazia uns dois meses que ele já não freqüentava mais o Bordel da Lucimara, nem aparecia mais no boteco do Jonas nas madrugadas pra tomarmos cachaça e jogar pôquer, sumiu até do bingo e das corridas de cavalo. Pobre Vladimir, ele não merecia uma facada dessas, vá entender.


(Bruno Ottenio)
( Essa é uma história de ficção, e eu juro que não conheço nenhum Vladimir Corrêa )
           

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sal

Idéia


Essa imensidão não me trouxe alegria

Não fiquei simpático, nem assisti o lendário pôr-do-sol
O sal me salgou, literalmente
Tranquei-me em mim mesmo, e fiz algo que não fazia à tempos, chorei

Pensei em correr, correr pra longe, durante dias
Mais não tive coragem, estava longe demais
A minha singularidade se tornou evidente em meio ao plural
Plural de pessoas dispersas, felizes, importantes

Os minutos se tornaram horas, as horas dias
E assim sucessivamente, fui me consumindo, sozinho
Tentei fingir sorrisos olhando pro infinito
Sorrir pra quem ?

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece
Não dá, não tem jeito
É como um filme que se assiste várias vezes
Eu decorei as falas, os momentos, os sentimentos


(Bruno Ottenio)



(Esse é um poema de ficção, sem métrica e sem rimas)



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Diário de um Neurótico


Pseudo-crônica





Estão tramando algo contra mim, hoje cedo no caminho para o trabalho, notei  que havia um sujeito me seguindo , um homem negro e alto, engravatado, terno engomado preto, e um simpático chapéu panamá, apertei o passo para tentar despistá-lo mais quando me dei por conta, o infeliz já estava me perguntando as horas, logo percebi que se tratava de um agente  secreto da Receita Federal fazendo uma investigação sobre as irregularidades nas minhas declarações.
Chego ao trabalho e dou de cara com a Elaine, a recepcionista , uma moça  magrela e muito pálida, os cabelos são tão louros que até arde os olhos, com os dentes rebocados de batom vermelho, olha pra mim, sorri, e me deseja um sínico “Bom Dia”. Bom dia uma ova maldita jararaca, há tempos que vem querendo roubar o meu cargo na divisão de vendas, à mim ela não engana.
Há algum tempo decidi parar de almoçar no restaurante da empresa, tenho pra mim que o Durval, o cozinheiro, está tentando me envenenar de qualquer maneira. Desde então, trago marmita de casa, porém eu mesmo a faço, desconfio que minha mulher compartilhe do mesmo desejo de Durval, a bruáca quer me matar de qualquer jeito, só pra receber a minha pensão, e realizar a sua tão sonhada viajem pra Juazeiro do Norte.
Na volta pra casa, o cobrador do ônibus sorriu e acenou com a cabeça no exato momento em que cruzei a roleta, esse abusado só pode estar de brincadeira comigo, ele deve saber de algo a meu respeito, ou meu cabelo deve estar com cocô de passarinho, ou tem alface entre os meus dentes, ou esse displicente deve estar me achando com cara de palhaço, ou de ator do zorra total, por muito pouco não mando o infeliz dar risada pra puta que o paril.
Tomei uma atitude sensata esses dias, comprei uma arma, isso mesmo um revólver, um trinta e oito, um chorão, um buldoguinho...Enfim, agora me sinto mais seguro nas peladas de sábado à tarde, prefiro assim pra evitar maus entendidos, principalmente com o Jurandir, aquele safado do departamento pessoal, se faz de simpático, de bonzinho, de esportista, mais está louco pra quebrar minha perna, faz tempo que flagro a maldade e a sujeira em seu olhar, e ainda tem a cara-de-pau de me convidar pro churrasco de domingo na casa dele, desaforado !
Fui fazer alguns exames de rotina e o Dr. Moreira me pergunto se eu tomava bebidas alcoólicas com freqüência, me senti redondamente ofendido, esse sabichão deve estar me achando com cara de cachaceiro, de alcoólatra, de bebum. Doutorzinho arrogante, só porque tem um diploma embaixo do braço, acha que pode me julgar dessa maneira, se eu bebo ou não é problema meu, canalha.
Deixem-me em paz seus crápulas, parem de me perseguir, de me atormentar, de me confundir. Não os levo em consideração, e deixem que o meu caixão, carrego eu..



(Essa é uma história de ficção, baseada em fatos irreais ) (ou não)

 (Bruno Ottenio)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Valei-me



Baboseira





Veja essa criança de roupas sujas
Carrega consigo um avalanche de sentimentos, de pré-noções, de malícias
Corre nas ruas feito uma locomotiva sem freios, ultrapassando as limitações do tempo e da física
Sorri como se fosse puro, santo
Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador

Reza sem bíblia, sem terço, sem medo
Medo de Deus nunca teve, só medo do "coisa ruim", valei-me minha Nossa Senhora ! vá de reto
Diz que vai na missa só pra comer pãozinho, odeia o coitado do vigário, criou aversão
Aversão de endinheirados, moleque danado de invejoso

Ontem me disse que teria seu primeiro dia de labuta
Sonha em ficar endinheirado, moleque danado de controverso
Nunca vi ordinário trabalhar, tanto é que não durou muito
Agora está pra cima e pra baixo de novo

Está virando rapazote, hora fala grosso, hora fala fino, hora fala grosso, hora fala fino
Mais o sorriso é sempre o mesmo, cheio de sentimentos, pré-noções, malícias
Diz que vai estudar no próximo semestre
Moleque danado de mentiroso

Vai ficar por aí na vida, sentindo o vento soprar-lhe as orelhas
Ainda correndo nas ruas, agora  montado à cavalo
Cavalo de metal, de depressão, desânimo
Perdeu o sorriso e o medo do "coisa ruim"
Agora só tem medo de virar gente grande

Valei-me minha Nossa Senhora ! vá de reto


( Esse é um poema de ficção, com várias palavras, e muitas letras )


(Bruno Ottenio)