Dizem que escrever é um dom. Eu considero um desabafo, um vômito, um cuspe
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Jaz teu réquiem
Nunca fui simpático em relação à velórios; devo ter ido em três ou quatro no máximo, e em todos é sempre aquela mesma ladainha: Viúva chorando, cafézinho fraco, molecada correndo pra lá e pra cá, e aquele cheiro insuportável de difundo empalhado mesclado aos lírios podres.
Porém farei questão de comparecer especialmente à um velório, o meu. Sim, eu sei que é meio óbvio mas quando digo que estarei lá, não me refiro ao meu corpo presente, até mesmo porque esse será apenas um presuntão amontoado numa caixa de madeira, mas estarei em espírito e ficarei sentadinho de pernas cruzadas pitando um cigarrinho ao lado do camarada que acabou de bater as botas, eu.
Recuso qualquer oferta de passagem para outras vidas antes do funeral, sejam elas ofertadas pelo Todo Poderoso, ou sejam elas ofertadas pelo Tinhoso Belzebu. Eles é que não me venham com aquele papinho clichê de luz azul e fim do túnel, nessa eu não caio. Ficarei aqui, e desmentirei qualquer lágrima de crocodilo que pingares em meu caixão durante a unção do Padréco.
Circularei por todo canto me embrenhando no meio das rodinhas de conversa, e me emputecerei com a hipocrisia póstuma que costuma açoitar aqueles que permanecem vivos: “Pobre coitado, era um sujeito tão bom, quase um santo” – Santo é a senhora sua mãe! E para aqueles verdadeiros e despudorados que se atreverem à relembrar as minhas falhas e bobagens em meio à essas lamúrias de nostalgia, esses sim terão o meu eterno apreço.
Tomarei um cafezinho, brincarei de pega-pega com a molecada, e provavelmente darei muitas risadas com aquelas piadinhas que todo tio cretino teima em contar durante os velórios; seria um dia bacana e cansativo se eu estivesse vivo.
Quando entoarem o salmo final e finalmente encherem-me de terra nos olhos, darei um beijo carinhoso à cada um que o mereça, e tentarei perdoar à todos que me fizeram mal, todavia um perdão que não garanto, pois mesmo depois de dormir pretendo guardar minhas memórias, e o mal que fiz, carregarei para sempre dentro dessa alma penada.
Bruno Ottenio
Porém farei questão de comparecer especialmente à um velório, o meu. Sim, eu sei que é meio óbvio mas quando digo que estarei lá, não me refiro ao meu corpo presente, até mesmo porque esse será apenas um presuntão amontoado numa caixa de madeira, mas estarei em espírito e ficarei sentadinho de pernas cruzadas pitando um cigarrinho ao lado do camarada que acabou de bater as botas, eu.
Recuso qualquer oferta de passagem para outras vidas antes do funeral, sejam elas ofertadas pelo Todo Poderoso, ou sejam elas ofertadas pelo Tinhoso Belzebu. Eles é que não me venham com aquele papinho clichê de luz azul e fim do túnel, nessa eu não caio. Ficarei aqui, e desmentirei qualquer lágrima de crocodilo que pingares em meu caixão durante a unção do Padréco.
Circularei por todo canto me embrenhando no meio das rodinhas de conversa, e me emputecerei com a hipocrisia póstuma que costuma açoitar aqueles que permanecem vivos: “Pobre coitado, era um sujeito tão bom, quase um santo” – Santo é a senhora sua mãe! E para aqueles verdadeiros e despudorados que se atreverem à relembrar as minhas falhas e bobagens em meio à essas lamúrias de nostalgia, esses sim terão o meu eterno apreço.
Tomarei um cafezinho, brincarei de pega-pega com a molecada, e provavelmente darei muitas risadas com aquelas piadinhas que todo tio cretino teima em contar durante os velórios; seria um dia bacana e cansativo se eu estivesse vivo.
Quando entoarem o salmo final e finalmente encherem-me de terra nos olhos, darei um beijo carinhoso à cada um que o mereça, e tentarei perdoar à todos que me fizeram mal, todavia um perdão que não garanto, pois mesmo depois de dormir pretendo guardar minhas memórias, e o mal que fiz, carregarei para sempre dentro dessa alma penada.
Bruno Ottenio
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Sorriso doloso
A parte de trás do cabelo cor de sol ficava enrolada formando um volumoso coque no alto da cabeça, a franja era delicadamente sobreposta sobre as sobrancelhas artisticamente delineadas. Pintava os olhos e os lábios, remodelava os cílios, e deixava escapar um sorriso de canto de boca quando conferia-se pela última vez no espelho do guarda-roupa arcaico. Jogava a bolsa sobre os ombros, pedia a benção de Jah, e tomava o ônibus às nove.
Vivia à dizer-me que a vida no departamento pessoal era um bocado difícil, provavelmente seria deveras. Passava o dia contando horas, férias, folgas, avisos, décimos terceiros, extras e até mesmo tempo; contava tanto que às vezes encontrava-se consigo mesma em seus sonhos inconscientes, e lhe contava os seus segredos, seus planos, seus medos. Pensava em ir para o litoral, São Vicente talvez, contou pra si mais uma vez.
Atrás da parede de vidro, via-se apenas seus cabelos reluzentes trançados de maneira bonita e engraçada, quando levantava a cabeça e observava o movimento continuo na repartição pública, abria-se num sorriso tímido e agressivo se acaso visse algo que merecesse tal gesto; sorriso embaraçoso, doloso, difícil não retribuir.
E assim vivia, contava; e quando não o fazia, apenas ouvia o que as músicas lhe diziam e abria um novo sorriso embotado de esperança e bons fluídos.
(Bruno Ottenio)
Vivia à dizer-me que a vida no departamento pessoal era um bocado difícil, provavelmente seria deveras. Passava o dia contando horas, férias, folgas, avisos, décimos terceiros, extras e até mesmo tempo; contava tanto que às vezes encontrava-se consigo mesma em seus sonhos inconscientes, e lhe contava os seus segredos, seus planos, seus medos. Pensava em ir para o litoral, São Vicente talvez, contou pra si mais uma vez.
Atrás da parede de vidro, via-se apenas seus cabelos reluzentes trançados de maneira bonita e engraçada, quando levantava a cabeça e observava o movimento continuo na repartição pública, abria-se num sorriso tímido e agressivo se acaso visse algo que merecesse tal gesto; sorriso embaraçoso, doloso, difícil não retribuir.
E assim vivia, contava; e quando não o fazia, apenas ouvia o que as músicas lhe diziam e abria um novo sorriso embotado de esperança e bons fluídos.
(Bruno Ottenio)
domingo, 9 de outubro de 2011
Amnésia induzida
Deixe de desdém mulher, não finja que esqueceu-se dos meus gostos musicais e nem pense que falhastes em minha memória aquelas várias epopéias que me contaste naquelas noites de Julho.
Agora tu passas em frente ao botequim e nem se atreve a torcer o pescoço para acenar-me com riso bobo de poetisa que sempre fostes; inconformo-me com tamanha ignorância, e desatino em cachaça junto aos meus “amigos”, que bebem, e cantam Ataulfo Alves desgostosos feito eu.
Aquele presente que me deu no dia em que completei anos, ainda guardo com muito apreço e estima, faz-me lembrar de ti sempre que o vejo sobre a estante de mogno empoeirada. Mas não arrisco à dizer que tais lembranças sejam benéficas, não sei de fato o que elas representam, mas o sabor é tão doce que amarga em meu paladar já inapurado.
Pensas que não percebi quando me olhou de canto de olho ontem no metrô rumo à consolação, seus dedos negros folheavam inútilmente “Tristes Trópicos” enquanto me fitava ressabiada, Lévi-Strauss nunca havia sido tão indiferente diante de teus olhos dispersos.
Sei que já deixou outros bebuns à torto direito, e que cada um morre um pouco dentro de ti à cada dia, mas hoje é domingo e está fazendo sol, talvez passe em sua casa para irmos ao cinema, ou talvez volte para a boemia que tão bem me quer e encontre você em outras rebentas, dessa forma, também morrerei mais um pouco e à matarei outro tanto.
Agora virei marxista, ando dando pulos, e fazendo revoluções verdadeiramente legítimas, em breve você me verá na televisão ou irá em meu velório. Depois disso, peço por favor que não vanglorie-se ao dizer que um dia fui teu. Guarde esse segredo, e me deixe em sua eterna amnésia.
(Bruno Ottenio)
Agora tu passas em frente ao botequim e nem se atreve a torcer o pescoço para acenar-me com riso bobo de poetisa que sempre fostes; inconformo-me com tamanha ignorância, e desatino em cachaça junto aos meus “amigos”, que bebem, e cantam Ataulfo Alves desgostosos feito eu.
Aquele presente que me deu no dia em que completei anos, ainda guardo com muito apreço e estima, faz-me lembrar de ti sempre que o vejo sobre a estante de mogno empoeirada. Mas não arrisco à dizer que tais lembranças sejam benéficas, não sei de fato o que elas representam, mas o sabor é tão doce que amarga em meu paladar já inapurado.
Pensas que não percebi quando me olhou de canto de olho ontem no metrô rumo à consolação, seus dedos negros folheavam inútilmente “Tristes Trópicos” enquanto me fitava ressabiada, Lévi-Strauss nunca havia sido tão indiferente diante de teus olhos dispersos.
Sei que já deixou outros bebuns à torto direito, e que cada um morre um pouco dentro de ti à cada dia, mas hoje é domingo e está fazendo sol, talvez passe em sua casa para irmos ao cinema, ou talvez volte para a boemia que tão bem me quer e encontre você em outras rebentas, dessa forma, também morrerei mais um pouco e à matarei outro tanto.
Agora virei marxista, ando dando pulos, e fazendo revoluções verdadeiramente legítimas, em breve você me verá na televisão ou irá em meu velório. Depois disso, peço por favor que não vanglorie-se ao dizer que um dia fui teu. Guarde esse segredo, e me deixe em sua eterna amnésia.
(Bruno Ottenio)
domingo, 18 de setembro de 2011
És bonança
Baboseira
Pinte as unhas dos pés pois sabes que neles tenho fetiche, mas não penteie os cabelos, deixe-os assim, adoro esse desgrenhamento.
Hoje saio às quatro do trabalho, passarei no mercado e comprarei uma garrafa de vinho tinto, e um maço de cigarros para nós dois, voltei a fumar. De proveito, dou um pulo na locadora e pego aquele filme ridículo que você está com palpite, nem sequer lembro o nome.
Faça aquele macarrão ao pesto que tu sempre acertastes a mão; coloque dois pratos sobre a mesa e me espere ouvindo jazz, Miles Davis por favor, não precisa de luz de velas, deixe de frescuras, já temos energia elétrica e assim consigo vê-la melhor entre uma garfada e outra.
Jogue um colchão no chão da sala, e estenda aquele lençol de sede italiana que você ganhou de natal da sua tia-avó, bote o filme clichê, e prometo que tentarei prestar atenção; pouco me importa o final, só quero dormir com a mão em teu seio nu, e o braço enrolado em seu corpo suado.
Pela manhã, só desejo sentir seu hálito adoravelmente quente e malcheiroso me desejando um bom dia como quem acordara pela primeira vez na vida, passe um café fresco e me conte sobre o seu dia anterior, porém faça-me o favor de não falar em política e inflação, se faltar assunto, não diga que me ama, nem tampouco que me adora, apenas abra seu sorriso branco, e diga como é bom estar comigo, ficarei tímido, corarei, mas depois de cinco minutos inteiros, direi o mesmo sem demagogia.
(Bruno Ottenio)
domingo, 31 de julho de 2011
Estopim
Coçou mais uma vez os olhos por baixo dos óculos de grau e jogou com raiva a caneta sobre a folha de caderno ainda em branco, o relógio acusava oito horas da manhã de um sábado de outubro; lembrou com pesar a aflição que o açoitou ao receber o tema proposto para o seu folhetim semanal que seria publicado no domingo subseqüente: “O amor segundo os amantes”. Tema difícil deduziu logo de cara, nada lhe vinha à mente sobre a dissertação proposta, leu até alguns poemas de Rimbaud para encontrar inspiração para algo tão cauteloso e polêmico, não funcionou.
Equivocar-se falando de economia, política, ou talvez de gastronomia, é absolutamente tolerável, mas equivocar-se sobre o amor, é considerado uma heresia sem precedentes, o amor inquieta os leitores, causa frissom as madames, e amolece os doutores, - “Xingue a mamãe, mas não fale mal do meu dengo !” – tem gente que se ofende, pensou.
Recostou-se novamente na mesa, empunhou a caneta na mão esquerda, e encheu o peito como se fosse vomitar um milhão de palavras doces e singelas sobre o amor [...] nada. Enraivou-se mais uma vez e decidiu desvirtuar, levantou-se metendo um chute na cadeira e foi atrás de um estopim. Encheu um copo americano até o meio de cachaça Pedra 90, e virou numa talagada só, largou-se no sofá, ligou a TV, e zapeou cada inútil canal a procura de algo que o estimulasse literariamente; a urgência estipulada pelo editor chefe do jornal, só fazia aumentar a sua angustia, inquietou-se com a quantidade de baboseiras que a TV o impunha, e decidiu sair. Calçou os sapatos, ajeitou a camisa por dentro da calça, vestiu o paletó, e antes de sair passou a mão por cima da estante da sala apanhando um maço de cigarros.
Quem o via caminhando no calçadão de Ipanema embaixo de um sol escaldante, achava a figura no mínimo pitoresca; andava vagarosamente ajeitando o bigode que por muito pouco não cobria toda a boca, sacou um cigarro e o acendeu com as mãos tremulas, virou-se para o mar e imobilizou-se durante alguns segundos; continuava tão blasé quanto anteriormente, sua mente nunca esteve tão auto-suficiente, não pensava em nada, nem sequer percebeu o quanto o dia estava bonito.
“Maldito tema” – pensou mais uma vez inconsolado. Suando feito um porco embaixo do paletó com ombreiras, chegou até uma barraca de bagulheiras, sentou-se em frente ao mar, e pediu uma água de coco. Alguns moleques jogavam futebol na areia como se fosse um jogo entre Brasil e Argentina tamanha a seriedade e desempenho dos jovenzinhos, uns rapazes surfavam e faziam poses para as garotas de biquíni, as garotas por sua vez, estavam mais preocupadas em se bronzear e falar da vida alheia, alguns ciclistas passaram numa velocidade incrivelmente rápida logo atrás no calçadão, torceu o pescoço pra ver mas já estavam longe, tentou mais uma vez concentrar-se e focar a sua atenção para aquilo que teria de escrever, mas de nada lhe adiantava.
Ainda sentado em frente ao mar, e imerso em sua ausência literal, chegou a conclusão que ele próprio não tinha a menor idéia do que era o amor, talvez nem sequer havia sentido-o algum dia, considerou que seria impossível para um sujeito que nunca amou ninguém escrever sobre algo que nunca desfrutou; sentiu um vazio interminável no peito, engoliu a seco e sentiu saudades daquilo que nunca teve, acendeu mais um cigarro e decidiu que desistiria da publicação, enfiou a mão no bolso do paletó e apanhou o celular na intenção de ligar para o editor chefe para informá-lo sobre a sua desistência; antes de ligar, ergueu os olhos e viu rente ao mar um casal de velhinhos caminhando pacientemente sobre a areia molhada, de mãos dadas e cabelos brancos, trocavam beijos entre os passos e cafunés alternados, foi o sinônimo mais expressivo de amor que ele já havia visto; e num estalo de criatividade e sentimentalismo correu para o seu apartamento, sentou-se sobre a cadeira rente à mesa, e desandou à escrever na folha branca de papel, ao fim, considerou um dos seus melhores folhetins já escritos, “A amor segundo os amantes – O segredo da eternidade”, orgulhou-se do título; faltando pouco tempo para o fechamento da edição, enviou o seu material imbuído da certeza do sucesso e excelência do mesmo.
Na segunda-feira cedo, chegou radiante ao jornal e cumprimentou Elisete, a recepcionista, com um entusiasmado bom dia; além de não responder, a moçoila esticou-lhe um envelope e disse com uma voz aguda. – “O chefe pediu pra te entregar”. Pegou o papel das mãos da moça, botou a maleta no chão, abriu aflito o envelope e puxou o documento, alisou o bigode, e leu somente o título – “Carta de Demissão”.
(Bruno Ottenio)
quarta-feira, 13 de julho de 2011
O bom Crioulo, no samba é professor
Pseudo-crônica
Depois de muita ladainha e muito tititi, o malandro deixou de conversa e resolveu fazer o que lhe seria pago para que fosse feito. Botou o copo de cerveja em cima de um caixote de frutas improvisado de mesa, puxou com vontade o último fumaceiro da cigarrilha de palha e o lançou pra longe quase atingindo os pés descalços de um neguinho maltrapilho que observava tudo atentamente, deu uma última ajeitada no chapéu panamá impecavelmente branco, e fez notável a sua vaidade quando conferiu pela última os sapatos para certificar-se de que eles ainda estavam limpos e engraxados do mesmo modo de que quando chegou no morro; juntou o violão ao peito, pigarreou com a voz rouca de baixo tenor, estralou os dedos um por um, e desatinou o vozeirão embalado com a harmonia do violão.
A Favela virou uma festa só, o murmurinho silencioso de apreensão, tornou-se gritos histéricos de alegria coletiva; o negrinho curioso e mal vestido, agora pulava, cantarolava, e sorria de contentamento envolvido pelo samba do malandro marrento; aos poucos o pandeiro também ganhou destaque junto aos acordes precisos do violão, em pouco tempo o samba estava feito.
Cerveja, samba, mulatas, e alegria, era isso que o malandro mais gostava nessa vida, exibido que só ele, brincava de fora à fora no braço extenso do violão, de estipe elegante e despojado, cantava fazendo charme pra moças que sambavam ao seu redor; depois de uma pausa para um gole generoso de cerveja, pontilhou novamente o seu violão e saudou Cartola, decretou a alvorada no morro, ninguém sentia tristeza, muito menos desabor; lembrou de Leci Brandão e viu lá longe o Zé do Caroço dançando com um copo de cerveja na mão abraçado à duas mulatas, limitou-se à cumprimentá-lo com um aceno de cabeça e um sorriso sem interromper o sambalanço; de súbito, o malandro lembrou-se que teria que pegar o trem que sairia às onze horas direto pra Jaçanã, mas como já havia perdido a hora, resolveu ficar e tocar uma do tal Adoniran Barbosa, “Agora só amanha de manhã” pensou.
Em cima de uma laje distante, o malandro viu uma menina mulher da pele preta sambando solitária, a preta o fitou com seus olhos azuis, e escancarou o seu sorriso branco, retribuindo o gesto, o malandro mandou-lhe uma piscadela, e um beijinho no ar carregado de muita malícia, sujeitão charmoso que só.
Ali do ladinho, o malandro percebeu um sujeito meio ressabiado, de boina e camisa surrada aberta até o umbigo, o camarada olhava pros lados aflito e preocupado; meteu a mão no bolso e puxou um fumo diferente, ainda desconfiado, perdeu alguns minutos entretido com o cigarrinho que teimava em enrolar, quando percebeu que estava sendo observado pelo malandro, o sujeito se aproximou e falou acompanhado de um riso sacana – Vou apertar, mas não vou acender agora – meteu o cigarrinho no bolso da camisa, e se mandou
Varou a madrugada na favela, fazendo a alegria do povão, cantando de um jeito maroto e vivo, e tocando violão como aprendeu com Pai João. Pouco à pouco, o morro esvaziou-se, e o malandro viu que era hora de correr atrás do bonde, ainda sorrindo, acendeu mais uma cigarrilha de palha e ajeitou novamente seu chapéu; ajoelho-se e guardou vagarosamente o seu violão chorão na mala; meio embriagado, viu a pretinha da laje se aproximando sorrateira de vestidinho azul claro.
- Me pediram pra entregar o seu pagamento – Disse a preta com voz tímida tentando esconder o sorriso.
O malandro levantou-se, passou a mão no rosto da moça, e lhe deu um beijo sem nem ao menos perguntar o seu nome, a moça desandou ainda mais na timidez, esticou-lhe os braços e entregou o pagamento ao homem, o malandro pegou a garrafa de cachaça das mãos da moça, botou embaixo do braço, jogou o violão nas costas, e foi-se embora assoviando alguma música do Jamelão.
(Bruno Ottenio)
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