domingo, 18 de setembro de 2011

És bonança

             Baboseira




            Pinte as unhas dos pés pois sabes que neles tenho fetiche, mas não penteie os cabelos, deixe-os assim, adoro esse desgrenhamento.
            Hoje saio às quatro do trabalho, passarei no mercado e comprarei uma garrafa de vinho tinto, e um maço de cigarros para nós dois, voltei a fumar. De proveito, dou um pulo na locadora e pego aquele filme ridículo que você está com palpite, nem sequer lembro o nome.
            Faça aquele macarrão ao pesto que tu sempre acertastes a mão; coloque dois pratos sobre a mesa e me espere ouvindo jazz, Miles Davis por favor,  não precisa de luz de velas, deixe de frescuras, já temos energia elétrica e assim consigo vê-la melhor entre uma garfada e outra.
            Jogue um colchão no chão da sala, e estenda aquele lençol de sede italiana que você ganhou de natal da sua tia-avó, bote o filme clichê, e prometo que tentarei prestar atenção; pouco me importa o final, só quero dormir com a mão em teu seio nu, e o braço enrolado em seu corpo suado.
            Pela manhã, só desejo sentir seu hálito adoravelmente quente e malcheiroso me desejando um bom dia como quem acordara pela primeira vez na vida, passe um café fresco e me conte sobre o seu dia anterior, porém faça-me o favor de não falar em política e inflação, se faltar assunto, não diga que me ama, nem tampouco que me adora, apenas abra seu sorriso branco, e diga como é bom estar comigo, ficarei tímido, corarei, mas depois de cinco minutos inteiros, direi o mesmo sem demagogia.

(Bruno Ottenio)

domingo, 31 de julho de 2011

Estopim



                Coçou mais uma vez os olhos por baixo dos óculos de grau e jogou com raiva a caneta sobre a folha de caderno ainda em branco, o relógio acusava oito horas da manhã de um sábado de outubro; lembrou com pesar a aflição que o açoitou ao receber o tema proposto para o seu folhetim semanal que seria publicado no domingo subseqüente: “O amor segundo os amantes”. Tema difícil deduziu logo de cara, nada lhe vinha à mente sobre a dissertação proposta, leu até alguns poemas de Rimbaud para encontrar inspiração para algo tão cauteloso e polêmico, não funcionou.
                Equivocar-se falando de economia, política, ou talvez de gastronomia, é absolutamente tolerável, mas equivocar-se sobre o amor, é considerado uma heresia sem precedentes, o amor inquieta os leitores, causa frissom as madames, e amolece os doutores, - “Xingue a mamãe, mas não fale mal do meu dengo !” – tem gente que se ofende, pensou.
                Recostou-se novamente na mesa, empunhou a caneta na mão esquerda, e encheu o peito como se fosse vomitar um milhão de palavras doces e singelas sobre o amor [...] nada. Enraivou-se mais uma vez e decidiu desvirtuar, levantou-se metendo um chute na cadeira e foi atrás de um estopim. Encheu um copo americano até o meio de cachaça Pedra 90, e virou numa talagada só, largou-se no sofá, ligou a TV, e zapeou cada inútil canal a procura de algo que o estimulasse literariamente; a urgência estipulada pelo editor chefe do jornal, só fazia aumentar a sua angustia, inquietou-se com a quantidade de baboseiras que a TV o impunha, e decidiu sair. Calçou os sapatos, ajeitou a camisa por dentro da calça, vestiu o paletó, e antes de sair passou a mão por cima da estante da sala apanhando um maço de cigarros.
                Quem o via caminhando no calçadão de Ipanema embaixo de um sol escaldante, achava a figura no mínimo pitoresca; andava vagarosamente ajeitando o bigode que por muito pouco não cobria toda a boca, sacou um cigarro e o acendeu com as mãos tremulas, virou-se para o mar e imobilizou-se durante alguns segundos; continuava tão blasé quanto anteriormente, sua mente nunca esteve tão auto-suficiente, não pensava em nada, nem sequer percebeu o quanto o dia estava bonito.
                “Maldito tema” – pensou mais uma vez inconsolado. Suando feito um porco embaixo do paletó com ombreiras, chegou até uma barraca de bagulheiras, sentou-se em frente ao mar, e pediu uma água de coco. Alguns moleques jogavam futebol na areia como se fosse um jogo entre Brasil e Argentina tamanha a seriedade e desempenho dos jovenzinhos, uns rapazes surfavam e faziam poses para as garotas de biquíni, as garotas por sua vez, estavam mais preocupadas em se bronzear e falar da vida alheia, alguns ciclistas passaram numa velocidade incrivelmente rápida logo atrás no calçadão, torceu o pescoço pra ver mas já estavam longe, tentou mais uma vez concentrar-se e focar a sua atenção para aquilo que teria de escrever, mas de nada lhe adiantava.
                Ainda sentado em frente ao mar, e imerso em sua ausência literal, chegou a conclusão que ele próprio não tinha a menor idéia do que era o amor, talvez nem sequer  havia sentido-o algum dia, considerou que seria impossível para um sujeito que nunca amou ninguém escrever sobre algo que nunca desfrutou; sentiu um vazio interminável no peito, engoliu a seco e sentiu saudades daquilo que nunca teve, acendeu mais um cigarro e decidiu que desistiria da publicação, enfiou a mão no bolso do paletó e apanhou o celular na intenção de ligar para o editor chefe para informá-lo sobre a sua desistência; antes de ligar, ergueu os olhos e viu rente ao mar um casal de velhinhos caminhando pacientemente sobre a areia molhada, de mãos dadas e cabelos brancos, trocavam beijos entre os passos e cafunés alternados, foi o sinônimo mais expressivo de amor que ele já havia visto; e num estalo de criatividade e sentimentalismo correu para o seu apartamento, sentou-se sobre a cadeira rente à mesa, e desandou à escrever na folha branca de papel, ao fim, considerou um dos seus melhores folhetins já escritos, “A amor segundo os amantes – O segredo da eternidade”, orgulhou-se do título; faltando pouco tempo para o fechamento da edição, enviou o seu material imbuído da certeza do sucesso e excelência do mesmo.
                Na segunda-feira cedo, chegou radiante ao jornal e cumprimentou Elisete, a recepcionista, com um entusiasmado bom dia; além de não responder, a moçoila esticou-lhe um envelope e disse com uma voz aguda. – “O chefe pediu pra te entregar”. Pegou o papel das mãos da moça, botou a maleta no chão, abriu aflito o envelope e puxou o documento, alisou o bigode, e leu somente o título – “Carta de Demissão”.

(Bruno Ottenio)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O bom Crioulo, no samba é professor

Pseudo-crônica



Depois de muita ladainha e muito tititi, o malandro deixou de conversa e resolveu fazer o que lhe seria pago para que fosse feito. Botou o copo de cerveja em cima de um caixote de frutas improvisado de mesa, puxou com vontade o último fumaceiro da cigarrilha de palha e o lançou pra longe quase atingindo os pés descalços de um neguinho maltrapilho que observava tudo atentamente, deu uma última ajeitada no chapéu panamá impecavelmente branco, e fez notável a sua vaidade quando conferiu pela última os sapatos para  certificar-se de que eles ainda estavam limpos e engraxados do mesmo modo de que quando chegou no morro; juntou o violão ao peito, pigarreou com a voz rouca de baixo tenor, estralou os dedos um por um, e desatinou o vozeirão embalado com a harmonia do violão.
A Favela virou uma festa só, o murmurinho silencioso de apreensão, tornou-se gritos histéricos de alegria coletiva; o negrinho curioso e mal vestido, agora pulava, cantarolava, e sorria de contentamento envolvido pelo samba do malandro marrento; aos poucos o pandeiro também ganhou destaque junto aos acordes precisos do violão, em pouco tempo o samba estava feito.
Cerveja, samba, mulatas, e alegria, era isso que o malandro mais gostava nessa vida, exibido que só ele, brincava de fora à fora no braço extenso do violão, de estipe elegante  e despojado, cantava fazendo charme pra moças que sambavam ao seu redor; depois de uma pausa para um gole generoso de cerveja, pontilhou novamente o seu violão e saudou Cartola, decretou a alvorada no morro, ninguém sentia tristeza, muito menos desabor; lembrou de Leci Brandão e viu lá longe o Zé do Caroço dançando com um copo de cerveja na mão abraçado à duas mulatas, limitou-se à cumprimentá-lo com um aceno de cabeça e um sorriso sem interromper o sambalanço; de súbito, o malandro lembrou-se que teria que pegar o trem que sairia às onze horas direto pra Jaçanã, mas como já havia perdido a hora, resolveu ficar e tocar uma do tal Adoniran Barbosa, “Agora só amanha de manhã” pensou.
Em cima de uma laje distante, o malandro viu uma menina mulher da pele preta sambando solitária, a preta o fitou com seus olhos azuis, e escancarou o seu sorriso branco, retribuindo o gesto, o malandro mandou-lhe uma piscadela, e um beijinho no ar carregado de muita malícia, sujeitão charmoso que só.
Ali do ladinho, o malandro percebeu um sujeito meio ressabiado, de boina e camisa surrada aberta até o umbigo, o camarada olhava pros lados aflito e preocupado; meteu a mão no bolso e puxou um fumo diferente, ainda desconfiado, perdeu alguns minutos entretido com o cigarrinho que teimava em enrolar, quando percebeu que estava sendo observado pelo malandro, o sujeito se aproximou e falou acompanhado de um riso sacana – Vou apertar, mas não vou acender agora – meteu o cigarrinho no bolso da camisa, e se mandou
Varou a madrugada na favela, fazendo a alegria do povão, cantando de um jeito maroto e vivo, e tocando violão como aprendeu com Pai João. Pouco à pouco, o morro esvaziou-se, e o malandro viu que era hora de correr atrás do bonde, ainda sorrindo, acendeu mais uma cigarrilha de palha e ajeitou novamente seu chapéu;  ajoelho-se e guardou vagarosamente o seu violão chorão na mala; meio embriagado, viu a pretinha da laje se aproximando sorrateira de vestidinho azul claro.
- Me pediram pra entregar o seu pagamento – Disse a preta com voz tímida tentando esconder o sorriso.
O malandro levantou-se, passou a mão no rosto da moça, e lhe deu um beijo sem nem ao menos perguntar o seu nome, a moça desandou ainda mais na timidez, esticou-lhe os braços e entregou o pagamento ao homem, o malandro pegou a garrafa de cachaça das mãos da moça, botou embaixo do braço, jogou o violão nas costas, e foi-se embora assoviando alguma música do Jamelão.

(Bruno Ottenio)


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Boa noite, bom dia

Pseudo-crônica


                Mal o atabaque estralou na mão de um filho de Oxóssi, a Negra já saltou num pulo expressivo e girou em volta de si mesma. Pés descalços, cabelos suspensos, e vestido branco rodado; a Preta dançava pros Orixás, brincava de ser Iansã, sorria feito Exú malandro, o terreiro ficou pequeno pra tanta formosura, mal se via o rosto da Crioula, só um vulto negro transcendendo os limites do tempo, do ritmo, dos planos.
                Naquela congada, a Neguinha tornou-se a rainha do jongo, pulava pra cá, pulava pra lá, girava como um peão, e esvoaçava a cabeleira. Coisa linda nunca viram igual, dizem que foi a Crioula mais bela que já passou  pelo Rompe Mato, tem caboclos dizendo que foram as duas horas mais curtas de suas vida, tamanho o encanto da Negra ao dançar.
                Findo batuque, a Preta sorriu extasiada, passou as mãos sobre os cabelos, e os amarrou com um lenço florido, lavou o rosto e disse com a voz cansada – Tenho que ir, pego o ônibus às dez – E então ela partiu, voltou pra imanência.
                Ilhada em meio à um amontoado de latas, a Preta olhava através da janela do ônibus e pensava na vida que tinha pra levar, nas contas pra pagar, no dia seguinte de trabalho; sacou um livro da bolsa e tentou ler um pouco de Guimarães Rosa, mas foi interrompida pelos buchichos que vinham do banco de trás, um casal de adolescentes discutindo a relação dentro do coletivo em pleno engarrafamento – “Você é um imbecil, seu ridículo” – acusou a menina. Tentou mais uma vez focar a sua atenção no livreto do Guimarães, mas dessa vez a distração foi ainda maior – “Em breve Jesus irá voltar meus irmãos” – Berrava efusivamente um senhor engravatado ao fundo do ônibus – “Tomara” – falou a Negra baixinho como se conversasse com ela mesma.
                Cada passageiro uma história, um desafio, um castigo. Passou a observar algumas senhoras sentadas mais à frente, e viu a dor da luta e do descaso estampados nas peles negras, reconheceu o peso da vida e da morte refletido em alguns olhos tristes que também buscavam alguma luz através da janela do ônibus. Quando ela percebeu, estava transcendendo novamente, mas foi interrompida por uma nova distração:
- O negócio é o seguinte cambada, isso aqui é um assalto e não quero ninguém dando vacilo hein, vai botando celular, carteira, mp3, relógio, tudo aqui dentro, se ficar de patifaria vai tomar tiro na cara pode crer ?
Um por um, os dois moleques de touca e óculos escuros foram recolhendo os celulares, carteiras e badulaques alheios; estenderam o saco plástico em direção da Negra, mas dessa vez ele não foi preenchido,  ela apertou a bolsa contra o peito e apenas encarou o menino com o olhar firme.
 - Escuta aqui Neguinha, tu ta querendo morrer ?
- Eu sei o que você está sentindo – Respondeu a Negra, com a voz doce e com os olhos cheios d’água.
O moleque deu dois passos pra trás e tirou os óculos revelando os olhos assustados, cutucou o parceiro que estava logo atrás, e sem dizer uma só palavra desceram do ônibus antes de concluírem o assalto.
Quando chegou em casa, a Negra desabou sobre a poltrona velha e ficou imóvel durante um longo tempo, aos poucos foi se desmanchando em lágrimas de alivio, procurou sob a blusa sua medalha de São Jorge, e quando encontrou tascou-a um beijo como se agradecesse ao santo guerreiro pela vida; a Negrinha estava protegida, essa Preta tem o corpo fechado.

(Bruno Ottenio)


sábado, 18 de junho de 2011

[...] Pós-moderno

Pseudo-crônica


“La Fête”, esse é o nome da mais nova boate que inaugurou aqui pros lados do São João. Cabelo milimetricamente penteado, barba precisamente bem feita, um tapa na escovação pra tirar o “bafo”, e uma gotícula poderosa do Paco Rabanne que comprei na vinte cinco; prontíssimo pra cair na farra.
Por falta de companhia, decidi conhecer o cafofo sozinho mesmo. Na entrada havia um tumulto desgraçado causado por uns sabichões pré-adolescentes que armaram o maior barraco por conta da faixa etária – Você sabe por um acaso quem é o meu pai?! –  o segurança apenas sacudia a cabeça dizendo que não. Um rapazote magricela e bem vestido chegou em mim e disse meio ressabiado – Eae Brother, estou com uns comprimidos legais aqui, pra tirar o sono, saca ? – Saco, peguei logo dois, estava exausto.
Lugarzinho aconchegante, parecia aqueles botecos americanos que se vê nos filmes do Tarantino, gente bonita, boa decoração e o melhor do “Drumembeis”; juntei-me ao balcão e junto com um assovio inconsciente, gritei pro homem do bar:

- Amigo, cowboy !
- Ta na mão chefe – prontificou-se deslizando o copo de uísque pelo balcão.
- Amigo ! (assovio)
- Amigo ! (assovio)
- Amigo ! (assovio)

Fiquei mais tranqüilo, relaxei, resolvi dançar, dancei, dancei, dancei, cansei, tomei um comprimido, e dancei, dancei, dancei. Vi lá longe um sujeito me encarando de um jeito meio estranho, quando levantou-se e veio caminhando em minha direção, pode vê-lo melhor; sujeito bonito, cabelos pretos arrepiados e bem aparados, barba por fazer, pinta de jogador de beisebol, e um elegantíssimo terno Ralph Lauren.
- Você é bi ? – Perguntou o homenzarrão se encostando perto do meu ouvido, não entendi a pergunta e quis parecer simpático.
- Sou Corinthians, desde moleque, daqueles roxos, podem falar o que quiserem mais aquele ataque de oitenta e dois sem dúvidas foi o melhor, Casagrande, Sócrates e Ataliba, que time !
- Você beija homens? – Dessa vez o cidadão foi mais especifico.
 - Sim claro, meu filho, meu pai, meus tios, meu avô...
- Olha aqui Brother, quero saber se você gosta de beijar homens na boca – O bonitão estava irritado dessa vez.
- Aaaaaaa, entendi (tentei, mas não consegui disfarçar a risadinha sem graça) mas não, não beijo não, tenho o maior respeito pelos irmãos, mas não.
O grandalhão se sacudiu, esbravejou algo, bateu o pé, e voltou me maldizendo à caminho do mesmo lugar onde estava sentado, não entendi muito bem a intenção do malandro, mas relevei a sua crise histérica momentânea.
Esses comprimidos realmente fazem efeito, comecei sentir umas coisas estranhas, enxergar formas abstratas, luzes bilaterais, vértices difundidos, resolvi ir embora, estava tarde.    
Antes de cruzar a porta, acendi um cigarro, e fitei o salão sem nenhum motivo especial, só pra ver o rosto das pessoas; elas estavam felizes, anestesiadas, saindo de si, aflorando-se num mundo despudorado; sorri sozinho, também sem motivos. Antes do derradeiro trago, vi no fundo do salão, duas mulheres de “mimimi”, fiquei na tara de que elas estariam se beijando, por um segundo pensei em continuar na festa e tentar realizar a minha mais sórdida fantasia sexual, mas supus que elas só estariam conversando. Traguei, cocei os olhos, e parti.


(Bruno Ottenio)



domingo, 5 de junho de 2011

A moça que (des)amou

Pseudo-crônica



Cresceu sempre muito bem alimentada à base de iogurte, leite em pó, e pão de forma com presunto e queijo; sua lancheira sempre era a mais recheada da turma.
                Um amor de menininha, um orgulho pro papai, o docinho da mamãe; tocava Beethoven no piano para as visitas, ás vezes até arriscava uma palinha nas poesias de Dostoiévski – Que graça! – exultavam as visitas, batendo palminhas e enchendo os olhos d’água com sorrisos bobos.
                Garotinha simpática era aquela, cabelos dourados cor de sol, sempre amarrado com um lenço cor-de-rosa bem engomado, o vestidinho sempre impecável repleto de rendas e babados, o sapatinho de boneca, havia ganhado do papai no último aniversário. Quando abria um sorriso, tudo ficava em paz, tudo se ajeitava [...]doce e harmonioso sorriso.
                Começou cedo à trabalhar no escritório contábil do pai, embora não fosse necessário, ela levava à sério o setor de arquivos. Responsável e dedicada, era tecida de elogios pelo pai coruja, que à cada dois meses à presenteava com um generoso aumento.
Quando a mamãe percebeu, o seu tesouro já havia virado rapariga; não tocava mais piano, e nem beijava os pais na frente das amigas. Costumava  se trancar no quarto, e ouvir bossa nova pensando nos amores platônicos, ninguém descrevia tão bem os seus sentimentos, quanto Tom Jobim.
                Desde de criança, o papai sempre à alertou sobre os rapazes, mas a moça era curiosa, teimosa, aflita, apaixonou-se, amou além da conta, e chorou como o pai havia previsto. Chorou dessa vez por perder um amor real, e não platônico, percebeu que o real doía ainda mais, e percebeu que o Tom Jobim era meio abstrato, positivista demais, passou à preferir o Chico,  trancou o peito.
                Resolveu dançar pela dança do mundo, bailou com rapazes diferentes, com moças diferentes, confundiu os prazeres, alternou taras, virou noites e mais noites em claro, sorrindo e cantando, chorando e remoendo. Tentou de novo, uma, duas, três vezes...não conseguia mais, deixou de amar.
                Teve uma vida confortável e maluca, experimentou de tudo, viu o mundo em suas várias facetas, até que sossegou com previu que sossegaria; Mal conseguiu chorar quando o pai morreu dois meses depois da mãe; pitava seu cigarro de menta procurando lembranças na varanda de casa, mas nada vinha-lhe à mente, todos os doces momentos haviam se apagado em sua mente já cansada.
                Morreu velhinha de morte morrida, sozinha em casa [...] bebeu o cálice de vinho, depositou o cigarro ainda aceso na mesinha de centro, sentou-se vagarosamente na cadeira de balanço, e sentiu o peito apertar como à tempos não sentia, havia até esquecido que ali batia um coração, um pouco antes de morrer, ouviu a introdução de uma música do Chico que tocava na vitrola, tentou identificá-la para torná-la a sua música de morte, mas antes do carioca cantar, ela cochilou.

(Bruno Ottenio)

domingo, 29 de maio de 2011

Café amargo

Baboseira

         (Contribuição da famigerada Jamile Angelo)

         Ontem eu fui dormir e percebi como eu gostava da minha cama. Como eu gostava de dormir esparramada e cheia de travesseiros.
      Hoje eu acordei e já arrumei minha cama, não gosto de ter que fazer isso depois. Fui pra cozinha e não tinha nenhum copo sujo de coca-cola em cima da pia, passei o meu café. Exatamente um copo, não ficou forte nem fraco, não sobrou e nem faltou. O dia seguiu tranqüilo não tinha nada fora do lugar, não tinha maços de cigarro espalhados pela casa, nem muitos fios de cabelo no chão.
      Adoro passar o dia no meu quarto, sozinha, lendo os textos para a aula de amanhã. O tempo nem sempre passa rápido, mas quando escurece tudo está em ordem e o dia foi exatamente como deveria ser.
      Não sei por que, mas a verdade é que eu trocaria esse dia perfeito, com todas essas coisas que eu tanto gosto, por um dia com você!


(Jamile Angelo)